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Licitar para PME: guia para contratação pública

Por:Icela MartinTenders
Licitar para PME: guia para contratação pública

O setor público representa aproximadamente 14% do PIB na União Europeia. Para muitas empresas, é o cliente mais importante da economia nacional. No entanto, existe uma barreira psicológica: a crença de que licitar para PME é uma missão impossível, reservada às grandes corporações do IBEX 35.

A realidade é diferente. A Lei 9/2017 de Contratos do Setor Público (LCSP) estabelece no seu preâmbulo a necessidade de facilitar o acesso às pequenas e médias empresas. Se é autónomo ou gere uma pequena empresa, a administração pode ser o seu próximo grande cliente.

Neste guia detalhamos como funciona o ecossistema da contratação pública para PME, os requisitos legais, os tipos de procedimentos e como a tecnologia de inteligência artificial está a nivelar o campo de jogo.


Por que é estratégico licitar para PME em Espanha?

Além do volume de faturação, trabalhar com o setor público oferece vantagens competitivas cruciais para a estabilidade de uma pequena empresa:

  • Solvabilidade e garantia de cobrança: Embora exista o mito dos incumprimentos, a administração é um pagador seguro a longo prazo. Embora seja verdade que podem existir atrasos, a lei estabelece mecanismos de proteção, como o vencimento de juros de mora se se superar o prazo legal de pagamento. Pode consultar os dados reais nos relatórios sobre o Período Médio de Pagamento (PMP) do Ministério da Fazenda.
  • Recorrência e estabilidade: Muitos contratos de serviços (limpeza, manutenção, consultoria) ou fornecimentos são plurianuais. Ganhar uma licitação pode assegurar uma parte da sua faturação fixa durante 2, 3 ou até 4 anos.
  • Reputação e solvabilidade técnica: Uma adjudicação pública valida a sua capacidade perante o mercado privado. Ter trabalhado para um Ministério ou uma Câmara Municipal é uma credencial de peso no seu currículo empresarial.

Requisitos para licitar sendo uma PME: A casa em ordem

Antes de procurar oportunidades, deve assegurar-se de cumprir com as exigências legais. A normativa europeia e a LCSP exigem que qualquer empresa tenha plena capacidade de agir e acredite a sua solvabilidade.

1. Ferramentas digitais obrigatórias

Hoje em dia, o processo é 100% eletrónico. Não poderá apresentar nenhuma oferta sem:

  • Certificado digital qualificado: De representante de pessoa jurídica ou de pessoa física (autónomo).
  • Registo em plataformas: Deve estar registado na Plataforma de Contratação do Setor Público (PLACSP) e, dependendo da sua zona geográfica, em plataformas autonómicas (como a da Generalitat da Catalunha ou a Junta da Andaluzia).

2. Inscrição no ROLECE

O Registo Oficial de Licitantes e Empresas Classificadas do Estado (ROLECE) é o seu "passaporte" para licitar. Embora em procedimentos abertos simplificados sumários (contratos pequenos) se possa acreditar a capacidade documentalmente em cada licitação, a LCSP (art. 159) exige a inscrição no ROLECE para participar em procedimentos abertos simplificados.

  • Vantagem: Inscrever-se poupa-lhe apresentar as escrituras, poderes e Cartão de Cidadão em cada licitação. Acredita a sua capacidade de agir frente a todos os órgãos de contratação. 

3. Solvabilidade económica e técnica

Não precisa de ser uma multinacional, mas deve demonstrar que pode executar o contrato. Os cadernos de encargos costumam pedir:

  • Solvabilidade económica: Geralmente, um volume anual de negócios referido ao melhor exercício dos últimos três disponíveis. Segundo a LCSP, este requisito não deveria exceder uma vez e meia o valor estimado do contrato (salvo justificação).
  • Solvabilidade técnica: Certificados de boa execução de trabalhos similares realizados nos últimos anos. Se é uma empresa de nova criação (menos de 5 anos), a lei permite acreditar a solvabilidade por outros meios (títulos académicos, meios materiais), facilitando assim licitar para PME que acabam de nascer.

4. Seguros e Classificação

Para contratos de serviços e fornecimentos, raramente se exige classificação empresarial (salvo grandes montantes). No entanto, para contratos de obras com valor estimado igual ou superior a 500.000 €, a classificação é obrigatória. Além disso, tenha em conta que quase sempre precisará de um Seguro de Responsabilidade Civil (RC) de acordo com a atividade.

Tipos de procedimentos: A quais deve ir uma PME?

Nem todas as licitações públicas para pequenas empresas são iguais. Entender o procedimento é vital para calcular as suas opções de sucesso.

  • Contrato Menor: Adjudicação direta para montantes baixos (menos de 40.000€ em obras e 15.000€ em serviços/fornecimentos). São rápidos, mas com menos publicidade e transparência.
  • Procedimento Aberto: O padrão. Qualquer empresa pode apresentar-se. Avalia-se a solvabilidade e a oferta.
  • Procedimento Aberto Simplificado: Desenhado especificamente para agilizar a burocracia. Reduzem-se os prazos e os envelopes administrativos. É ideal para PME, mas requer inscrição obrigatória no ROLECE.
  • Sistemas Dinâmicos de Aquisição (SDA): Processos totalmente eletrónicos para compras de uso corrente. Funcionam como uma homologação prévia onde depois se lançam licitações específicas.

Pode consultar os detalhes destes procedimentos nas Diretivas de contratação pública da UE.

O ciclo de vida de uma licitação passo a passo

Para ganhar contratos públicos, deve dominar as três fases do ciclo de vida. Aqui é onde a maioria das empresas comete erros por falta de método.

1. Deteção e filtragem (Inteligência de mercado)

Existem milhares de licitações diárias. Procurar manualmente no BOE ou nas plataformas autonómicas é ineficiente. As licitações categorizam-se por códigos CPV (Vocabulário comum de contratos públicos da UE), mas frequentemente estão mal etiquetadas pela administração.

Para não perder oportunidades, é crítico ir um passo mais além e aplicar Inteligência de mercado. Não basta encontrar o processo, precisa de analisar dados históricos e preços da concorrência para filtrar apenas aquelas licitações onde realmente é competitivo.

Conselho: 

Utilize ferramentas que procurem por palavra-chave e contexto semântico, e que lhe permitam visualizar dados de mercado para descartar opções não rentáveis.

2. Análise dos cadernos de encargos (PCAP E PPT)

Uma vez detetada a oportunidade, descarrega dois documentos críticos:

  • Caderno de Encargos Administrativos Particulares (PCAP): As regras jurídicas. Critérios de solvabilidade, fórmula de avaliação do preço, penalidades.
  • Caderno de Prescrições Técnicas (PPT): As necessidades técnicas. O que deve entregar e como fazer um PPT.

3. Estudo das Garantias

Para licitar, às vezes exige-se uma garantia provisória (para assegurar que mantém a oferta). Se resultar proposto como adjudicatário, deverá constituir a garantia definitiva (geralmente 5% do preço de adjudicação) para assegurar a correta execução.

4. Preparação e apresentação da oferta

Deve preparar, normalmente, três envelopes eletrónicos:

  • Envelope A: Documentação administrativa (DEUC, declarações responsáveis).
  • Envelope B: Oferta técnica (juízo de valor). Nunca inclua aqui preços.
  • Envelope C: Oferta económica e critérios automáticos.

Como licitar para PME sem morrer na tentativa: Tecnologia e eficiência

Tradicionalmente, licitar requeria um departamento exclusivo dedicado a ler papéis e redigir memórias. Isto deixava as PME fora de jogo face às grandes empresas. Hoje, a tecnologia democratizou o acesso.

O uso de inteligência artificial especializada permite a uma pequena empresa competir em igualdade de condições:

  1. Deteção sem ruído: Os agregadores inteligentes, como o de Tendios, centralizam todas as fontes (estatais, autonómicas e locais) e filtram as oportunidades irrelevantes, poupando horas de pesquisa diária.
  2. Análise de viabilidade: Ferramentas de Agentic AI podem ler um caderno de encargos de 200 páginas em segundos e extrair os dados chave: tenho a solvabilidade requerida?, há sub-rogação de pessoal?, quais são os critérios de adjudicação?
  3. Inteligência competitiva: Sabe a que preço ofertou a sua concorrência no contrato anterior? As bases de dados avançadas permitem-lhe ver os históricos de adjudicações para não ir às cegas com o seu preço.

Perguntas Frequentes sobre licitações para PME

Pode uma PME apresentar-se a uma licitação grande?

Sim, através da figura da UTE (União Temporária de Empresas). Pode aliar-se com outras empresas para somar solvabilidade e recursos, apresentando-se conjuntamente para executar um contrato que, por separado, seria inassumível.

O que é o DEUC e por que é importante?

O Documento Europeu Único de Contratação é uma declaração responsável padronizada a nível europeu. Substitui grande parte da documentação administrativa inicial, simplificando enormemente o trâmite de apresentação de ofertas.

Estou obrigado a subcontratar?

Em alguns contratos grandes, a administração pode exigir que uma percentagem do contrato seja subcontratada a PME, embora isto seja mais comum em grandes obras. Por outro lado, você como PME pode subcontratar partes do contrato (salvo as tarefas críticas indicadas no caderno de encargos) respeitando os limites da LCSP (art. 215).

O que acontece se apresento a minha oferta fora do prazo?

Em contratação pública, os prazos são fatais. Um minuto tarde significa a exclusão automática. Recomendamos apresentar as ofertas pelo menos 24 horas antes para evitar problemas técnicos com os certificados ou a plataforma Java.


Conclusão

O mercado da contratação pública está mais aberto que nunca para o tecido empresarial espanhol. Licitar para PME não só é possível, como é uma via de crescimento e estabilidade. A chave do sucesso reside na profissionalização: ter a documentação em dia (ROLECE), selecionar apenas aquelas oportunidades onde somos competitivos e apoiar-se em ferramentas tecnológicas que reduzam a carga administrativa.

Icela Martin

Icela Martin

Redatora Jurídica • Contratação Pública